Quem fala?
Pobres não existem. Foi-se o tempo. Hoje são duas parcelas da sociedade que se vêem divididas no cotidiano entre aqueles que trabalham em lojas (perdão, lojas também não existem, são megastores), redes de fast-food (o texto quase pulou dizendo “lanchonetes”, mas ninguém saberia do que se trata), empresas de tele-marketing, ou trabalhando como
garis, faxineiros, frentistas,e os que aparecem nos noticiários e escandalizam um grupo que se condói quando os vê dentro dos seus lares, nas suas televisões, mas que se sentem incomodados ao vê-los pela janela do carro, ou invadidos quando são importunadas nos semáforos.
Os primeiros, aqueles que têm emprego, não são pobres são
colaboradores. Espécimes freqüentemente denominados associados.Talvez você não saiba quem são esses, assim, em caso afirmativo, fique atento aos auto-falantes das megastores, eles sempre chamam por seus colaboradores e os mandam pra algum lugar.
Calma, normalmente, é para algum caixa ou para a gerência.Você também pode não vê-los fazendo serviços considerados menos nobres,
limpando ruas, jardinando prédios, abastecendo carros, lavando banheiros.Curiosamente, todos eles são etiquetados e ostentam um crachá que traz seu nome pessoal, mas que só é usado nos casos em que não estão colaborando tanto assim.
Bom, os outros.
Exceto quando se falam em novos postos de trabalho abertos, é o segundo grupo, muito mais fotogênico, que reina nos noticiários televisivos.
Imagem é tudo.Basta que se divida a população em percentuais e então são chamados “pessoas que vivem abaixo da linha da miséria”. Nas entrelinhas do consumismo e da miséria uma longa distância esteticamente preenchida com
grades, seguranças, guaritas e, sorria, você está sendo filmado.
Claro que está. Do lado de lá da tal linha as câmeras encontram zoológicos humanos. Reality shows. Aliás, noticiários, note: chocar-se através deles é completamente seguro,
não suja, não fede, não olhe para o lado e não abra as janelas do carro porque o ar condicionado está ligado.
Aqueles, os desaparecidos, aparecem como
preguiçosos, vilões de sua desgraça, incômodos.
Mas de ambos os lados, todos iguais.
Invisíveis, e mudos, e cegos, e surdos.
Cale-se. Inútil falar qualquer coisa.

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