terça-feira, junho 14, 2005

Quem vê?

Gosto de camisetas, ao menos das pretas. Mas não porque elas emagreçam. Na verdade, não me sinto nem um chaveiro mais leve que antes.

Bem, chaves no bolso, hora de ir. Mas antes é preciso uma sessão de tapas. A camiseta está cheia de pêlos e sua interação com roupas pretas é impressionante, sua química, um mistério. Só sei que brotam de algum lugar no obscuro interior da máquina de lavar.

Saio de casa com mais pêlos que o habitual e meio dolorido. Mas não há remédio, a outra sessão não espera.

Sr. e Sra. Smith.

Pode ler, não vou tirar o sabor do filme. Ao menos não da cobertura do bolo, mas talvez um pouco do sabor do recheio.

É um filme explosivo com um casal gelado. Aliás, não exatamente um casal, são duas pessoas casadas que ajustam seus jantares pra manter os relógios síncronos. Mas são um sucesso profissional. Lamento, é mesmo um bolo, assim a trama sai de uma forma: extremamente bem realizados em suas carreiras e completamente fracassados em casa.

Mas não desista ainda, o desenrolar da história não é nada quadrado. Ao contrário. Há tiradas espirituosas que provocam riso instantâneo e fácil. E a dupla dinâmica, convenhamos, é superior. Tudo isso faz com que você feche os olhos. E sim, é de olhos fechados que se assiste o filme.

Infelizmente.

Mas, com olhos abertos, há curiosidades a serem observadas ao seu redor. Mergulhada nas risadas da platéria a seqüência de uma esposa caída ao chão e chutada várias vezes pelo marido não parece nada absurda, na verdade, o expectador acha a cena engraçada e erótica, até mesmo esperando uma conclusão em sexo. Bem, sexo é pesado, mas não quero usar a expressão "fazer amor". Questão de pingos nos is.

As mesmas risadas são a trilha sonora de outra cena em que a atriz principal crava alguns centímetros de aço na coxa esquerda do galã. Vendo a sua excelência como profissional em cheque ela se desculpa enquanto seu parceiro tira o espinho da carne, deixando claro sua irritação, também impessoal. Claro, sem sentimentos envolvidos, tudo bem!

Termina o filme e as risadas dominam a sala. Dá pra sentir o cheiro de adrenalina no ar e um aroma de coisa guardada também se nota. São olhos, olhos que não vêem.

Já em casa, meu cachorro, o que não late, me recebe latindo e eu o recebo pra encher a camisa de pêlos outra vez, fecho os olhos pra eles.

domingo, junho 12, 2005

Quem paga?

Hoje acordei atrasado pro trabalho e saí sem comer.

Burro que só, passei no Pão de Açúcar e comprei um litro de iogurte pra em seguida subir no ônibus e enquanto ele sacolejava pela rua eu tentava beber o treco.

Pãtz, quase morro!

Não bastasse a garrafa ir pra todo lado menos pra minha boca, o iogurte foi parar no meu pulmão, no nariz, no verso do olho, no lugar que o pessoal chama de figo, e eu fiquei verde feito o sol em dia de chuva.

Duas horas depois, já de volta, onde vou eu? Ao Pão de açúcar de novo! Minha escova de dente havia fugido com a pasta dental e eu precisava reagir antes que minha boca virasse um bueiro. Então, tranquilão, entrei no mercado, peguei pasta, escova e dois sabonetes, e só no caixa fui me ligar que estava com a sacola da compra da manhã comigo... "E daí?!", pensei "Se pedirem a nota", que, claro, eu tinha jogado fora na mesma hora em que passei as mercadorias, " eu digo que não tenho e vou-me, em todo caso, mando provarem que peguei alguma coisa."

E adianta?! Por acaso eu não estava me sentindo vigiado enquanto ia saindo, antes mesmo de ver que gerente vindo na minha direção... É, e se seguiu a seguinte sequência sequiosa:

"-Bom dia. Eu observei que o senhor entrou na loja com uma sacola com nosso logotipo. O senhor tem a nota fiscal dessa compra?"

Bom dia nada. Bom dia é o tijolo do olho esquerdo condensado. Eu não sabia o que cara queria?

Conferir se eu não estava roubando nada, roubando não, furtando. Pãtz, vai mandar sapatos pro esterno!!! Veio com uma conversa de lacrar meus pertences quando eu entrar no lugar. Que papo é esse?! Quem são pra me tratarem com esse tipo de atitude?! Além disso sugeriram que eu colocasse minhas coisas num guarda volumes. Guarda volumes é o nome que se dá a prateleiras numeradas toscas, onde minhas coisas ficariam expostas aos funcionários da empresa. Os mesmos que não confiam em mim, mas em quem provavelmente eu deveria confiar.

Eu e o mercado. Não deixo de pagar vinte centavos ou vinte reais no caixa. Outro dia comprei 4 pêras lá, seis reais. Sim, eram pêras. São esses os toscos que me tratam se prevenindo de um roubo. Bem, quatro pêras lindas que abertas em casa estavam completamente podres. Podres. Foram guardadas no congelador e ao descongelar estragaram, provavelmente esse foi o motivo que as levaram à embalagens fechadas. Ah, claro, era só trocar usando a nota fiscal que tinha ido pra lata do lixo. Eu e o mercado. Mas ladrão sou eu. Ao menos sem a tal nota fiscal.

Com ela não sou ladrão, mas ainda assim tenho de provar que não sou. Não existe uma lei que diz que o ônus da prova é do acusador?

Abuso.

Vou procurar um advogado e saber se podem me submeter à esse tratamento (vexatório) preventivo explicado pelo tal gerente da seguinte maneira "Infelizmente, as pessoas honestas têm de pagar pelos outros", a menos que a lei esteja do lado deles, a mãe do Abílio que pague pelo que querem receber, eu não.

Quem ouve?

Está ficando impossível andar pra qualquer lado. Acho que foi isso, e não o umbiguismo, que fez com que os carros ganhassem mais atenção das (e "que") pessoas.

Não dá pra andar mais em lugar algum. As calçadas estão tomadas por mato, jardins, sujeira e merda de cachorro. Mas meu incômodo não é com a calçada. Andar despreocupado é pisar em um cocô ou outro, mas nada que água e sabão não resolvam.

Mas eu dizia que não dá pra andar em lugar algum. As pessoas se trancam em suas casas e até mesmo um "-Bom dia, vizinho!" já é motivo pra desconfiança: "-Quem é esse cara?" fala a ruga na testa e o beiço duro.

Mas, como estava dizendo, não dá pra andar em lugar nenhum. Granadas nas calaçadas, caretas nos vizinhos e cães.

Ah, os cães!!!

Gosto de cães em geral. Gosto do meu. Mas detesto cães. Ao menos hoje, ao menos quando quero andar pra qualquer lado. Meu discurso não é contra as maluquices que apareceram pra cães-parte-da-família (festas de aniversário com direito à bolo de carne e velinhas, esmalte de unhas, bonezinhos e óculos escuros).

Andando pelas calçadas, um olho no chão, outro nas caras feias e os ouvidos nos latidos sem fim de cães estéricos* que até análise já fazem. E latem, latem, latem, latem e latem, latem, latem e latem. Não dá! Se meu cachorro fosse assim, será que eu daria um teco nele?

Sério, não sou um cara violento. Mas depois de andar cinco ou seis quadras eu me transformo. Qualquer dia começo a ladrar junto e mordo um bicho desses. Casa por casa, um ou mais canídeos insanos latem como se o fim do mundo tivessem de anunciar! Como se o Cão estivesse passando em frente aos seus dentes. Pô! Feio sim, mas cara de apocalipse não!

Poodles, Cockers e os Bassets, os piores de todos os cachorros em todos os lugares de todos os mundos com lugares que têm cães, vira-latas em geral, raças mais bizarras em penteados mais extravagantes, todos latindo. Ir à padaria é motivo de levante geral. Meu, são duas quadras! Parece uma praça de guerra! Eles respondem uns aos outros, coisa que os donos já não fazem, e a ida e a volta é debaixo da latizeira** dos monstrinhos.

É, houve tempo em que os vizinhos se cumprimentavam, recebiam os novos com tortas e bolos de boas-vindas, abriam as portas de suas casas e confiavam uns nos outros, ou, se o silêncio não era confortável, ao menos comentavam sobre o tempo. Agora não! Não podem conversar pois estorvariam seus cães a me deixar mau humorado!

Os cães, perfumados, penteados, escovados, de unhas pintadas, devidamente analisados, tratados até mesmo com acupuntura, correm pelos jardins, e são presentes aos transeuntes. Os donos, calados, sisudos, mal se arriscam a um miado tímido, e confinados ao interior de suas casas, desaparecem. É, não era pra ser assim, mas é uma pena que os tais cães histéricos nunca aprenderão a dizer "-Bom dia!" com um sorriso no rosto.

Acabei falando contra as maluquices. Mas quem ouviria?


* Estérico me pertence, é meu, não mexa nele.
**Latizeira é do meu primo, mas não mexa do mesmo jeito, é feio futricar no que não é seu.

Cabe uma legenda:

Es.té.ri.co: adj (esfera - fera + histérico - his)
1. Qualidade do que é gordo como uma bola e histérico como os cães da minha vizinhança e provavelmente os da sua também.

La.ti.zei.ra: subs. fem. (latido + zeira)
1. Descreve uma região do universo que está se tornando inabitável para o homem devido a quantidade de canais orais de canídeos por unidade métrica.